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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Tudo Que Quero

Tudo que quero (Please stand by, 2017) é um filme que surpreende por tratar de forma delicada e até bem-humorada um tema delicado: até que ponto as pessoas que estão em um espectro do autismo são consideradas aptas para viver independentes? E é pelo olhar de um deles que o público é levado a pensar: pensar que eles tem tanta consciência quanto nós de suas responsabilidades, perigos e possibilidades é algo raro no cinema, uma vez que os pacientes tem uma representação bastante estereotipada no cinema.


Wendy Welcott (Dakota Fanning) é uma jovem que está internada em uma clínica por conta do seu difícil relacionamento com a irmã mais velha, Audrey (Alice Eve, de Star Trek - Além da Escuridão). Suas crises de raiva tornaram-se um empecilho para a convivência quando Ruby, a filha de Audrey, nasceu. Wendy, porém, mostra avanços extraordinários - e a próxima visita da irmã pode significar uma volta para casa. Apreensiva, ela tem consciência que pode voltar a se tornar um problema - e quer provar para todos que tem condições de se controlar.

Scottie (Collette) e Wendy (Fanning): rotina precisa para aumentar a independência da jovem
Uma oportunidade importante surge no horizonte de Wendy: fascinada por Star Trek, ela decide participar de uma competição para fãs. Todos deveriam enviar um roteiro de filme para avaliação, e o vencedor receberia um prêmio de 100 mil dólares. Obstinada, a jovem acredita que pode vencer o concurso e aposta suas fichas em seu talento - mesmo quando ninguém parece querer acreditar nela mesma. Assim, ela não vai medir esforços até conseguir entregar seu roteiro.

Algumas sequências divertidas acontecem no trabalho (nem tão legal assim) de Wendy
Conforme a trama se desenrola, percebemos que Wendy é mais desenvolta do que se poderia esperar de uma jovem com sua condição. Mais do que isso, o que poderia ser um obstáculo para ela, torna-se a peça fundamental para sua sobrevivência: a concentração e a facilidade de absorver e reter informações sobre seu objeto de interesse (no caso, a série Star Trek) a faz conhecer os personagens como ninguém. Há uma interessante comparação entre a jovem e o capitão Spock: cada um à sua maneira, eles tem dificuldades em processar emoções - porém encontram um jeito de compreendê-las e, por fim, expressá-las.

A imaginação de Wendy é povoada por Star Trek: homenagem à saga é divertida e emocionante
Uma das maiores sacadas do filme, porém, se perdeu na tradução. O título em inglês, "please, stand by", a frase que a psicóloga Scottie (Toni Collette, em excelente trabalho) usa para acalmar Wendy, domando sua ansiedade e descontrole. Sua tradução é "por favor, acalme-se", o que ficaria estranho como um título de filme - e justifica a mudança para outra expressão. Mas ao mudar para "tudo o que quero", insinuando um forte desejo de Wendy, ele não tem o mesmo efeito inconsciente de uma "pequena transgressão" que ela fará ao sair de sua zona de conforto e ir atrás do que deseja. E esse é exatamente o ponto central deste delicioso drama.

Wendy e o fofíssimo chiuaua Pete: seguindo em frente
É interessante notar o comportamento das três personagens principais quando tem que enfrentar essa mudança. Audrey, a irmã mais velha, fica responsável pela irmã mais nova com autismo desde que a mãe de ambas faleceu; tenta priorizar o que seria melhor para todos, e tem o comportamento que a maioria teria em uma situação parecida. Scottie se dedica tanto aos seus pacientes, que precisam tanto de sua atenção e cuidados, que acaba deixando o próprio filho mais livre. Não é que ela seja negligente, mas ela acredita que o filho pode ser independente - mas, como todo filho adolescente, ele ainda precisa da atenção da mãe. Wendy é paradoxalmente a mais frágil e a mais forte delas, pois conhece suas limitações, reconhece suas dificuldades e, ainda assim, tem consciência de seus atos (mesmo que sua avaliação das consequências seja bastante prejudicada).

Quando Wendy precisa da ajuda de um policial, é a paixão por Star Trek que permite a comunicação entre eles
O roteiro de Michael Golamco é uma ampliação do curta que ele mesmo escreveu, e onde pôde incluir novas nuances e perspectivas para a história de Wendy. Uma personagem cativante como ela precisa mesmo de um olhar mais atento, algo que vá além de sua condição de autista. Há espaço para humor, referências apaixonadas de Star Trek, compaixão e reflexão enquanto acompanhamos a jovem lutar pelos seus sonhos - como qualquer outra protagonista que não tivesse o mesmo diagnóstico psicológico que ela. E esse é o grande acerto desse filme: Wendy nunca é retratada como uma coitada, mas como uma jovem cheia de energia e esperança; que sofre como qualquer outra pessoa, porém é capaz de reagir e correr atrás do que quer.

"Só existe uma direção lógica para seguir: em frente"
A direção de Ben Lewin é suave, deixando que as personagens falem com suas próprias vozes através da ótima interpretação de seu elenco. A escolha por uma fotografia clara e natural, a opção pelo uso de cores vibrantes no figurino e nos detalhes da  produção de arte, refletem o espírito da estória: mostrar que os desafios são os mesmos para todos e basta coragem para mudar seu destino. Uma sessão agradável para a família, que traz alguns bons assuntos para a mesa (como preconceito, honestidade, família, perseverança) e uma ótima pedida para quem adora se encantar com estórias de sonhadores.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Baseado em Fatos Reais


Baseado em Fatos Reais (D'après une histoire vraie, 2017) já tinha estreado no país no Festival do Rio - mas agora chega às telonas em circuito nacional. O novo longa do polêmico diretor Roman Polanski (O Bebê de Rosemary, Chinatown, O Pianista) promete mais do que cumpre - principalmente quando a "grife" de um nome tão consagrado está no comando. Baseado no romance de Delphine de Vigan, o thriller psicológico - apesar de bastante engenhoso - não traz nenhuma novidade ao gênero.

Délphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner) é uma escritora de sucesso que recentemente alcançou o estrelato com uma publicação polêmica: acusada por sua família de se apropriar da verdade para fazer sucesso comercial, ela tenta não se afogar na fama. Uma fã, porém acaba chamando a sua atenção em uma sessão de autógrafos: Elle (Eva Green) é uma mulher bonita e enigmática, que parece querer mais do que uma dedicatória da sua autora favorita - ela demonstra um interesse maior pelo modo de trabalho de Délphine. Fragilizada com as pressões dos compromissos e a ânsia em voltar à paz do seu trabalho, Délphine vê em Elle uma figura capaz de lhe ajudar com a parte burocrática da vida e, ao mesmo tempo, uma intrigante provocadora de ideias.

Délphine (Seigner): autora de sucesso luta para começar um novo livro após seu grande sucesso
A amizade de Elle e Délphine, porém, logo se transforma em algo mais forte. Elle passa a demonstrar uma obsessão doentia com o novo livro que Délphine está escrevendo, e a presença que antes a ajudava a se equilibrar agora passava a ser mais controladora - e é em meio a essa confusão que ela tem que decidir se é melhor mantê-la perto de si (afinal, é inegável a ajuda que ela lhe oferece) ou afastá-la (quando um surpreendente lado mais agressivo da amiga aflora).

Em linhas gerais, a trama tem tudo para ser um ótimo filme, mas a ideia foi muito mal aproveitada: é surpreendente a falta sutileza desde a primeira cena. A graça de um thriller psicológico é manter o espectador na dúvida, mas, para os mais atentos, o final já se revela nas primeiras cenas do longa - transformando toda a narrativa em óbvias e mornas sequências de um falso suspense. O roteiro de Olivier Assayas e do próprio Polanski não esconde seus trunfos nem disfarça as intenções das personagens, o que torna tudo muito escancarado e frustrante. Em muitos momentos o público já desconfiava do que viria depois - e em momento algum ele foi surpreendido com alguma reviravolta (nem mesmo uma ruim). Há um festival de soluções ruins para tentar criar um clima que nunca se concretiza: um despropositado romance lésbico insinuado (nunca levado a cabo), ameaças anônimas, sonhos premonitórios (com efeitos especiais duvidosos), todos os clichês possíveis, acidentes mal executados, desculpas esfarrapadas.

Elle (Green) vai tomando o controle da vida de Délphine (Seigner) aos poucos
Muitas dessas soluções tornam-se quase inverossímeis: a forma como Elle se intromete na vida de Délphine é forçada demais, e deixa quem está assistindo incomodado com a falta de reação da personagem. Esse, talvez, tenha sido o maior erro: diminuir a força da protagonista ao confundir a passividade letárgica de uma pessoa em conflito interno com apatia total. Fica claro que a estranha vai tentar passar a perna nela em algum momento do filme, mas a forma com que a mulher (não) reage é quase ridícula. Há apenas um momento em que ela se incomoda com a intromissão da outra, mas logo em seguida Délphine volta atrás. Assim não dá para criar empatia com a protagonista - algo fundamental para uma estória dar certo. Os muitos furos não passam despercebidos, e não há nenhum momento de real tensão - apenas algumas poucas cenas para o fim do filme criam um receio de que algo mais grave possa acontecer, mas a gente já está esperando essa "coisa grave" desde o início (e, ao invés de instigar nossa apreensão, toda a adrenalina já se perdeu no caminho). 

Apesar das muitas falhas, preciso ressaltar o excelente trabalho de Emmanuelle Seigner: sua personagem só se destaca por conta de sua incrível capacidade de explorar as nuances dela - mesmo que boa parte do potencial tenha sido limado pelas decisões feitas no roteiro. Principalmente na reta final, onde sua personagem está mais fisicamente prejudicada e seu espírito mais fortalecido, é quando o talento de Seigner brilha mais forte. Dividindo boa parte do tempo de tela com Eva Green, fica ainda mais evidente como a mão da direção foi pesada: o contraste entre as performances das duas é gritante. Green não demonstra nenhum momento de suavidade na personagem, o que a torna extremamente explícita em uma psicopatia que deveria ser revelada gradativamente.

Baseado em Fatos Reais pode até cumprir seu papel de entreter, mas para o público mais atento e fã de Thiller Psicológico/Suspense, ele é, na verdade, um engodo. Confesso que, pessoalmente, esperava bem mais do diretor de um dos maiores clássicos do gênero, O Bebê de Rosemary (onde o público se sente tão refém e indefeso quanto a protagonista, que vive sem saber rodeada pelo mal).  

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Submersão

Submersão (Submergence, 2017) é o novo longa de Wim Wenders, e traz Alicia Vikander e James McAvoy como os protagonistas dessa trama que, como o nome sugere, busca mergulhar no âmago de seus personagens – aquele tipo de busca tão profunda que muitos tem medo de fazer por não saber o que vão encontrar.


Danielle Flinders (Vikander) é uma pesquisadora que usa da Matemática para compreender a vida marinha: uma teoria desenvolvida por ela e que deseja comprovar é que os seres vivos não precisam de luz ou oxigênio para existir; e se conseguir tal comprovação na expedição científica no fundo do oceano ártico em que participará, ela seria a primeira pessoa a comprovar que é possível que exista vida em outros planetas sem a existência de água.

James More (McAvoy) é um espião britânico e tem um plano ousado: usando seu disfarce de engenheiro hidráulico, ele pretende chegar até os chefões da resistência jihadista ofertando um plano de saneamento e distribuição de água. Seus superiores, no entanto, acham o plano arriscado demais e muita coisa pode dar errado. Pouco antes de embarcar nesta missão quase suicida, ele acaba por se hospedar no mesmo hotel de luxo que Danny, e um breve, porém intenso, romance entre eles irá mudar por completo as visões que ambos têm do mundo.

É interessante ver como o diretor explora o tema “submersão”: de forma literal, há a expedição científica; mas as metáforas são muito mais interessantes. O medo do inseguro, do desconhecido e, ao mesmo tempo, o fascínio que ele exerce sobre nós está espalhado em vários questionamentos que as personagens têm que enfrentar. Nenhum dos dois, a princípio, esperava se apaixonar pouco antes de cumprir suas missões na vida, mas mergulhar de cabeça nessa paixão foi inevitável, impossível – e as conseqüências não foram necessariamente tão românticas e pacíficas quanto se espera ao se encontrar o amor romântico.

James (McAvoy) e Danny (Vikander): dois opostos, duas metades
A narrativa mostra em paralelo como os dois, que são essencialmente diferentes um do outro (e, talvez por isso, complementares), passam a lidar com suas vidas e objetivos depois do encontro. Mesclando similaridades e mudanças de comportamento, situações onde ambos reagiriam de forma diversa ao que realmente fizeram, Wenders nos mostra que olhar tão para dentro pode ser assustador, mas também é necessário. Só há crescimento e verdadeira evolução se ousarmos vasculhar os locais onde temos mais medo e procurar as respostas. Ter sucesso ou não na missão já se torna irrelevante se o foco muda, e mesmo quando se encontrar exatamente o que se espera, não há garantias do que irá acontecer depois.

A bela Fotografia de Benoît Debie e a emocionante Trilha Sonora de Fernando Velázquez embalam com perfeição as ótimas performances de Vikander e McAvoy. Em ritmo cadenciado e contemplativo, somos levados a observar essas mudanças dentro e fora dos personagens. Destaco ainda a pequena, porém importante, participação de Alexander Siddig como o dr. Shadid, um personagem interessantíssimo e de participação crucial na estória de James. Submersão é uma ótima pedida para quem busca algo mais do que mero entretenimento.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Jogador Número 1


Baseado no livro homônimo de Ernest Cline, Jogador Número 1 (Ready Number 1, 2018) é o mais recente filme do diretor Steven Spielberg - o que soa perfeito, já que ele é um especialista em mesclar Ficção Científica, Aventura e Fantasia. A trama gira em torno de um jovem pobre que vê em uma disputa de videogame a oportunidade de mudar sua vida para sempre - se ele sobreviver ao jogo. 

Halliday (Rylance) e Morrow (Pegg): os nerds que criaram um mundo virtual
O ano é 2045 e os Estado Unidos estão no auge do abismo social. Destruído pela ganância capitalista, tudo se divide entre quem pode pagar e quem não pode. Nesse contexto, dois homens - Ogden Morrow (Simon Pegg, de Missão Impossível e Star Trek) e James Halliday (Mark Rylance, de Ponte dos Espiões) se tornam heróis ao criar um ambiente virtual onde o acesso é gratuito e a imersão é total: o OASIS é a perfeita fuga da realidade, um lugar onde qualquer um pode ser qualquer coisa que deseje. Mas os seus criadores acabam se distanciando quando desejam destinos diferentes para o ambiente virtual que criaram. Ogden quer expandir a empresa e torná-la ainda mais rentável, porém Jim queria manter a pureza dos jogos para entretenimento. Antes de morrer, Jim programou um concurso lendário: o primeiro a descobrir o easter-egg (um tipo de segredo escondido na programação dos videogames, que geralmente trazem grandes bônus e prêmios para os jogadores) que ele deixou no OASIS herdaria toda sua fortuna e sua parte na empresa.

Wade (Sheridan) no mundo real, enquanto experimenta o mundo virtual como Parzival
Wade Watts (Tye Sheridan, o jovem Ciclope de X-Men - Apocalipse) é apenas mais um caça-ovos na disputa pelo prêmio principal do concurso mais rentável da História. Como todos os outros, ele sonha conquistar o prêmio máximo e sair do trailer onde mora com a tia. Seu codinome no OASIS é Parzival, como o cavaleiro que encontra o Santo Graal (uma das inúmeras referências neste filme). Contando com a ajuda de seus amigos virtuais, Wade/Parzival precisa encontrar as três chaves e chegar ao último portão para pegar o ovo - mas Halliday não fez dessa uma competição fácil. Além dos desafios normais dos jogos de videogame, a vida real pode atrapalhar - e muito - o desempenho de Parzival na disputa pelo grande prêmio. A começar pelo coração.

Parzival e Art3mis (Cooke): paixão no mundo virtual também é real?
Art3mis (Olivia Cooke, de Bates Motel) é uma forte competidora e também a paixão secreta de Wade. Sem saber se pode tratá-la como aliada, namorada ou concorrente, ele ainda tem que lidar com a possibilidade dela ser, na vida real, alguém totalmente diferente do que ele imagina. Além disso, todo caça-ovos precisa se preocupar com uma ameaça ainda maior: a IOI, uma empresa de serviços da internet, quer a todo custo obter os direitos sobre o OASIS e faturar muito dinheiro em cima de propagandas, vendas de equipamentos e fornecimento de internet. A ameaça tem um rosto e um nome: Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn, de Rogue One - Uma Aventura Star Wars), o líder inescrupuloso de uma equipe de jogadores e hackers chamados de Os Seis.

Sorrento (Mendelsohn): poder e ambição em um só personagem
Muito mais que apenas seis pessoas, eles representam uma divisão da empresa especializada em pesquisar informações sobre as pistas e jogadores que aceitaram participar da competição pelo prêmio máximo em troca de um salário fixo (raridade e luxo nesse cenário). Porém, apesar dos muitos esforços dos caça-ovos independentes e dos famigerados Seis, ninguém tinha sequer descoberto como conseguir a primeira pista. E foi quase acidentalmente que Parzival a descobriu e ganhou a primeira chave do desafio, desencadeando a verdadeira corrida contra o tempo para garantir que aquele mundo, o único onde a vida fazia sentido para ele, não caísse em mãos erradas.

O exército dos Seis logados no OASIS: concorrência desleal
Em Jogador Número 1 acontece algo muito raro: o roteiro do longa em quase nada se parece com a obra original; mas, ainda assim, os dois produtos são muito bons. O próprio autor do livro é um dos roteiristas (Zak Penn assina com ele a adaptação do roteiro), então a essência dos personagens e suas funções permaneceram as mesmas, mas todo o resto foi alterado. Com razão, pois a enxurrada de informação que existe na primeira parte do livro não caberia em  um único filme (mesmo que este tenha quase 2h20 de duração). Todos ganham com essa alteração: em termos de ritmo, é ação do início ao fim - e os fãs da obra podem curtir novamente o que é ser desafiado pelo jogo de Halliday (os desafios e sequências são tão diferentes e intrigantes quanto os originais).

Os efeitos especiais desse filme são absurdamente bons e não tomam o protagonismo da estória
Alternando realidade e atuação com personagens humanos com imersão no OASIS regada a muitos efeitos especiais, o visual de Jogador Número 1 impressiona e encanta. Cenas épicas de batalhas com monstros, robôs, naves e super-heróis ficaram ainda mais impactantes na exibição em 3D IMAX, que ressaltaram a qualidade estupenda dos gráficos usados. Mais do que somente valorizar essa parte, o roteiro abre espaço para discussões muito humanas e pertinentes: questões como preconceito, arrependimento, desigualdade social, ambição desenfreada, corrupção, esperança e senso de justiça são temas importantes tocados nessa fantástica fábula dos tempos modernos.

Sim, você já viu essa cena antes. Não esqueça de procurar por mais referências!
O diretor Spielberg rege magistralmente essa imensa salada de referências e nostalgia, inclusive incluindo várias de suas criações no contexto - o DeLorean de De Volta Para o Futuro tem participação especial (e crucial) no longa. É preciso estar atento para perceber menções sutis (e outras nem tanto) a grandes clássicos do cinema, da música, dos videogames e da cultura pop dos anos 1980 - o que certamente vai agradar aos que tem mais de 30 anos. Mais do que se fixar em uma audiência específica, Jogador Número 1 foi pensado para agradar a todos os gêneros e faixas etárias: independente do seu grau de nerdice, com certeza o público irá se divertir e se emocionar com esta aventura deslumbrante. É um filme que trará a vontade de ver de novo, para que se vejam todos os detalhes e se deliciar com a maravilhosa trilha sonora. Esteja pronto para jogar!

quarta-feira, 21 de março de 2018

A Livraria


A Livraria (The Bookshop, 2017) chega aos cinemas brasileiros já laureado com os prêmios Goya de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado. A co-produção de Espanha, Reino Unido e Alemanha adapta a obra homônima de Penelope Fitzgerald para o cinema e retrata a paixão de uma jovem viúva pelos livros, seu último refúgio.

Florence Green (Emily Mortimer) torna-se viúva durante a Segunda Guerra e acaba se adaptando à pequena cidadezinha de Hardborough. Lá, o clima instável parece se adaptar perfeitamente à sua melancolia. Para fugir da solidão deixada pela falta do marido e distância de outros parentes, ela mergulha de cabeça em uma idéia um tanto desafiadora: deseja abrir uma livraria em uma casa abandonada da cidade.

Florence (Mortimer): "Ninguém é realmente sozinho em meio aos livros"
Sua empreitada já começa com passos incertos: ela não conhece o mercado literário a não ser pelo seu amor por livros e sua crença de que, com eles, ninguém está sozinho. Florence tampouco entende de gerenciamento de negócios, mas mantém-se firme em seu propósito apesar das desconfianças do gerente do banco ou de seu advogado. Ela investe todas as suas economias na compra e reforma do lugar para realizar seu sonho. Mas não é só desconfiança dos investidores que ela vai ter que enfrentar.

A “revolucionária” ideia de Green despertou a vaidade de uma poderosa senhora da sociedade local. Violet Gamart (Patricia Clarkson, deliciosamente maléfica) se mostra impressionada com a ideia da jovem, mas ela própria tem outros planos para a Old House – a casa onde Florence mora e irá montar seu negócio. Decepcionada por não conseguir o apoio que esperava receber, ela se manteve firme em seu propósito, apesar da descrença da cidade. E, obviamente, o sucesso da livraria frustrou os planos de Violet em construir ali um Centro de Artes. Mas a dama, assim como a viúva, não era mulher de desistir tão fácil assim de seus planos.
Florence conhece Violet (Clarkson): nem tudo o que reluz é ouro
Aos poucos, a livraria acontece e Florence contrata até mesmo uma ajudante, Christine Gipping (Honor Kneafsey, um achado). A criança é bem mais madura do que a maioria, e torna-se uma das poucas amizades verdadeiras dela. A única outra, e talvez a mais valiosa, é a do recluso senhor Edmund Brundish (Bill Nighy, em estupendo desempenho): um ermitão que partilha com Florence o amor pelos livros. Sendo seu primeiro e mais fiel cliente, ela sempre sugere alguns títulos para sua apreciação. Mas ao chegar às suas mãos o lançamento “Lolita”, de Wladimir Nabokov, ela não sabe o que fazer. Seria escandaloso demais para aquela pequena cidade? Ou eles precisavam mesmo de seu trabalho hercúleo de levar boa literatura para aquele canto esquecido do mundo?

De forma cativante, somos levados a acompanhar todos os percalços enfrentados por Florence Green para que sua livraria existisse. É como se uma fábula agridoce se desenrolasse diante dos nossos olhos, em tons pastéis de solidão e melancolia porém recheados de olhos vivos, alimentados pela paixão pelos livros. A diretora espanhola Isabel Coixet nos brinda com um drama contido e acerta em todas as suas escolhas, principalmente em duas delas: o ritmo deliberadamente lento, quase parado, para mostrar o quanto aquela vida arrastada pode sufocar alguém sem a coragem da protagonista para mudar; e o tom, melancólico sem ser triste, e eu diria até esperançoso. A delicada força da protagonista é o ponto de equilíbrio dessa linda estória.

Bill Nighy é Edmund Brundish
O recluso Sr. Brundish (Nighy): a paixão pelos livros servirá de elo na amizade com Florence
A bela fotografia de Jean-Claude Larrieu realça a ótima produção de arte e o desempenho dos atores: a fria cidade, a sobriedade e dureza das pessoas de lá, a falsa beleza que se esconde no brilho e calor quase sufocantes da mesquinhez dos ricos contrastando com o verdadeiro fogo – vivo e aconchegante – no brilho do olhar dos amantes dos livros. O quarteto principal, formado por Mortimer, Clarkson, Nighy e a pequena Kneafsey é impecável em seu desempenho, com destaque para os dois últimos. Ambos representam duas gerações distintas, mas tem a mesma entrega a seus personagens: ele magistralmente deixa escapar as sutilezas da alma do velho lobo solitário típico e o torna humano novamente; ela surpreende com o domínio das nuances bastante maduras de uma criança fora do comum.  


A pequena Christine (Kneafsey) é, curiosamente, o contrapeso da inocência de Florence: personagem fascinante
A Livraria é um filme memorável, feito para os amantes de livros. Para o grande público pode ser uma experiência diferente, uma vez que esse não é um típico romance ou megaprodução – mas quem disse que o diferente não pode ser interessante? Como todo bom livro, o longa envolve do início ao fim em personagens cativantes e lindas paisagens tristes, faz rir das ironias da vida e revoltar com as injustiças, abriga, ensina, devolve a esperança.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Operação Red Sparrow


Operação Red Sparrow (Red Sparrow, 2017) é um filme de espionagem feito para destacar a atuação de Jennifer Lawrence. Uma produção luxuosa, que correu países como Rússia, Hungria e Inglaterra para criar uma rede de intrigas onde uma jovem bailarina acabaria se transformando em uma espiã de primeiro escalão. Com um enredo bastante intrigante e sem nenhum furo, o longa promete agradar aos fãs do gênero.


Dominika Ergorova (Lawrence, regular) é a primeira bailarina do Bolshoi, a mais respeitada escola russa de balé e uma das mais importantes do mundo. A vida da bailarina, porém, não é nada fácil. Sua mãe sofre de uma doença degenerativa e ela depende do salário do balé para pagar as contas da casa e do tratamento dela. Seu pai é falecido e seu tio, Ivan Ergorov (Matthias Schoenaerts), trabalha para o governo e é bastante ausente. Tudo nessa rotina irá mudar em breve.

Do sonho à realidade cruel: não é fácil a vida da bailarina
Após um grave acidente que a impede de voltar a dançar, sua grande paixão e vocação, seu tio ressurge com a proposta irrecusável. Ele precisa que a sobrinha o ajude em uma emboscada contra um figurão russo, e como ele já demonstrou interesse na jovem antes, ela só precisaria atraí-lo para um local determinado. Depois do serviço pronto, ele faria o governo assumir os custos da casa e do tratamento da mãe dela. A situação, porém, não sai como o esperado por ela: o figurão foi assassinado e a ela se tornou uma testemunha perigosa. À jovem, restou apenas uma escolha.

Usando o codinome Katya, Dominika agora era apenas mais uma ferramenta do Estado nas mãos da Inspetora (Rampling)
Obrigada a se inscrever numa escola para espiões treinados para a avaliar suas vítimas, seduzi-las e manipulá-las para obter informações sigilosas, Dominika mostra-se uma aluna indomável porém de excelentes resultados. Apesar da relutância da Inspetora (Charlotte Rampling), a jovem é recrutada para uma missão apesar do pouco tempo de treinamento. Um agente russo está sendo acusado de passar informações para o agente americano Nate Nash (Joel Edgerton), mas eles desconhecem a identidade do informante. A missão da jovem é se aproximar de Nash e obter o nome do informante. Mas a jovem nunca foi realmente boa em seguir as instruções...

Nate (Edgerton) e Dominika: quem envolve e quem será envolvido?
A trama bem elaborada do longa é expressa em um roteiro coeso e com boas reviravoltas, que sempre deixam na dúvida qual a real intenção de Dominika em todas as suas ações. Embora o tom seja um pouco exagerado (no sentido político, onde a Rússia ainda não havia desistido da Guerra Fria e se mantinha tão sádica quanto a visão pintada pelos americanos lá na década de 1960), ele cria o clima certo para as motivações dos personagens. As locações, lindas e luxuosas, são belissimamente fotografadas e trazem um certo glamour de James Bond para o filme, porém incomoda demais o fato de focarem o treinamento de espiã apenas na sedução. Nas cenas de ação é possível perceber que ela teve um treinamento mais típico de agentes de campo (que já vimos em outros filmes com protagonistas masculinos), mas aqui tudo é focado na sedução. Então, a sensação é que fizeram este longa apenas para explorar o potencial sensual de Lawrence. Uma pena, porque a trama é realmente intrigante.

Cenas de tortura e nudez exigiram bastante da atriz
Há muitas cenas fortes, inclusive. Tortura, acidentes e machucados são mostrados sem pudor, assim como nudez frontal - então, se for levar filhos adolescentes ao cinema, é melhor que estejam preparados para isso. Ainda assim, Operação Red Sparrow é um bom filme de gênero - mesmo que não tenha trazido nada de novo para o mundo dos filmes de espionagem. O elenco estelar, com nomes de peso com Ciáran Hinds e Jeremy Irons, mantém o alto nível que uma produção desse porte exige.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Todas as Razões para Esquecer


Todas as Razões para Esquecer é uma deliciosa comédia dramática sobre términos de relacionamento. De maneira bem humorada, o filme de Pedro Coutinho - que escreveu o roteiro e dirigiu a obra - foca no processo de recuperação de Antônio (Johnny Massaro) em sua agridoce separação de Sofia (Bianca Comparato) e em como o jovem tenta reestruturar sua vida. Dos piores aos melhores conselhos, o rapaz terá que decidir o que fazer agora que sua amada não está mais por perto.
  

Depois de 2 anos morando juntos, Antônio e Sofia se separaram - algo que ninguém esperava. Ele é introvertido e tem dificuldades de verbalizar o que sente, o que por vezes o faz parecer indiferente. E nem mesmo depois que Sofia o dispensa ele consegue falar a respeito. Sem saber direito o que fazer, ele vai buscar ajuda com o amigo Gabriel (Victor Mendes), que o aconselha a tentar aplicativos de namoro.

Sofia (Comparato) e Antônio (Massaro): como lidar com o fim de uma relação assim?
Indo morar temporariamente com sua prima Carla (Maria Laura Nogueira), vê que ela também passa por um momento complicado no casamento. O casal faz terapia, e, mesmo relutante a princípio, ele também passa a se consultar com a dra. Elisa (Regina Braga). E é entre essa confusão de conselhos diferentes de pessoas que não o compreendem, não entendem como ele se sente de verdade à respeito do fim do relacionamento, que ele tenta sobreviver.

Antônio, seguindo o conselho do amigo Gabriel (Mendes): tentando seguir em frente
As fases estão todas ali: entorpecimento, raiva, desespero, dor, saudades, tentativas de reatar, orgulho ferido, as boas lembranças, as burradas que se faz na tentativa de esquecer um amor, o coração partido. O tom é às vezes melancólico, às vezes divertido - exatamente como os altos e baixos que a vida tem depois de uma mudança repentina - e esse é um dos pontos mais fortes desse longa. A escolha do elenco também é acertadíssima: Johnny Massaro está em alta e com razão, pois seu delicado e divertido desempenho como o protagonista atormentado é o destaque e a espinha dorsal do filme. A deliciosa e divertida participação de Regina Braga também acrescenta uma pitada extra de tempero na balança de conselhos dúbios que Antônio precisa equilibrar.

Álcool + antidepressivos = essa cena "lamentável"
Todas as Razões para Esquecer é uma deliciosa opção nacional para um filme divertido e que leva à uma reflexão mais profunda. Vale o ingresso, a pipoca, as risadas e o “papo-derrota” pós-sessão com os amigos - afinal, quem não se identificar com pelo menos um sentimento no filme, ainda não amou na vida. Estreia dia 01 de março.