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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Pantera Negra


A espera valeu a pena. Pantera Negra (Black Panther, 2018) chega aos cinemas para fazer História: primeiro filme do Universo Cinematográfico Marvel recente a ter um elenco majoritariamente negro, o longa de Ryan Coogler se diferencia de seus “primos” também pela qualidade do roteiro. Focado nos dilemas do príncipe T’Challa (Chadewic Boseman) ao assumir o trono de Wakanda - todo o ritual de sucessão e as consequências pós-atentado que vitimou o rei T’Chaka (John Kani) durante os eventos de Capitão América - Guerra Civil - e com um discurso muito mais politizado que os filmes solo dos outros Vingadores, balança brilhantemente cenas de ação empolgantes e drama sem deixar de ser divertido e relevante.

Wakanda: uma belíssima mistura de respeito à tradição e vanguarda tecnológica 
Uma linda cena de abertura, contando a história da criação de Wakanda (e como ela se tornou a grande nação tecnológica no coração da África por causa do vibranium, o metal alienígena mais resistente do universo) nas areias do tempo intercala um passado recente com consequências no futuro do novo rei. T’Challa está voltando para casa escoltado por sua melhor guerreira, Okoye (Danai Gurira, a Michone de The Walking Dead). A general das Dora Milaje - uma versão negra e muito badass das lendárias Valquírias e das Amazonas - o auxilia em uma missão de resgate a Nakia (Lupita Nyongo), mesmo que ela não precise tanto assim de ajuda. O objetivo era que ela também estivesse presente na coroação. Logo em seguida, porém, o roubo de um artefato wakandiano em um museu de Londres pode por tudo a perder: se o mundo souber que o carregamento de vibranium roubado por Klaue (Andy Serkis) era apenas uma parte - e não a totalidade - do metal existente no planeta, o país africano estaria em perigo. É nesse contexto que entra o Agente Ross (Martin Freeman), que também está investigando artefatos de vibranium desde os acontecimentos de Capitão América - Soldado Invernal.

O agente Ross (Freeman) tenta seguir os rastros do vibranium que Klaue (Serkis) ainda contrabandeia
Era quase inevitável que Pantera Negra tratasse de questões como racismo, protagonismo feminino e barreiras políticas (físicas ou não) para proteger um país e suas riquezas, mas a forma como isso se desenvolve nas entrelinhas é algo especial. Por todo o longa existem atitudes que falam mais do que as palavras dizem, mesmo que elas sejam às vezes mais diretas. O vilão Killmonger (Michael B. Jordan, de Creed: Nascido para lutar) luta por uma causa justa: se Wakanda tem toda aquela tecnologia e harmonia, porque se esconder atrás de barreiras invisíveis e deixar que suas nações irmãs sofram tanto? A espiã Nakia se recusa a viver no conforto de sua terra natal depois de ver que Wakanda se recusa a abrigar refugiados - mesmo que tenha plenas condições para dar-lhes uma vida digna. 

Duelo entre T'Challa (Boseman) e Killmonger (Jordan)
É esse contraponto entre o discurso político e as excelentes cenas de ação - dosadas perfeitamente com humor e, o mais importante, funcionalidade delas - que é o ponto forte do filme. Sim, porque não é porque estamos falando de um super-herói que precisa ter ação alucinante a todo momento para ser considerado bom: a gente já tinha visto isso em Logan, e agora em Pantera Negra. Os perfis são diferentes, mas a lógica é a mesma: se o personagem é bom, e o roteiro é melhor ainda, não precisamos de malabarismos para fazer um ótimo filme. 

Ação mistura os estilos de super-herói e filmes de James Bond: classe, humor e adrenalina
Méritos devem ser dados a todos os que fizeram a excelência: o roteiro sem excessos de Coogler e Joe Robert Cole, a maravilhosa produção de arte que criou uma Wakanda futurista e tribal belíssima (e totalmente verossímil), os ótimos efeitos visuais, e o elenco maravilhoso que inclui nomes de peso como Forest Whitaker, Martin Freeman e Angela Basset além de gratas surpresas como Letitia Wright. Sua carismática princesa Shuri, irmã do rei T’Challa e Chefe da Inteligência Tecnológica do reino, é forte e divertida - aliás, o trio Shuri, Nakia e Okoye não rouba a cena, mas se equipara em peso e importância aos antagonistas principais Pantera e Killmonger. Uma aula e tanto de feminismo, hein...

Shuri (Wright): uma princesa inteligente e sem medo da briga
Delicioso de ver, divertidíssimo de acompanhar, importantíssimo para a História do cinema. Superlativos não são exagero quando se trata de Pantera Negra, que cumpre o que promete e eleva o patamar dos níveis de heroi - especialmente depois do questionável Thor: Ragnarok. Só nos resta esperar com mais ansiedade a primeira parte de Guerra Infinita. Falta muito para abril?

P.S.: Como já é tradição, espere pelas cenas pós-créditos. Uma é bem rapidinha e faz conexão direta com os próximos eventos dos Vingadores. A outra... Bem, só dá para adiantar que todo mundo vai entender aquela metáfora. 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississipi


Mais um longa baseado em livro (no caso, o romance homônimo de Hillary Jordan), Mudbound - Lágrimas sobre o Mississipi (Mudbound, 2017) chega agora às telonas brasileiras sem muito alarde em cima dele. Uma pena, pois esta pérola deveria chegar ao maior público possível. Sem medo de olhar diretamente para um período sombrio da História americana - o período pós-guerra no interior do país, onde o racismo parece ser algo arraigado desde a época da Guerra Civil - e expor todos os nervos sensíveis através da relação de duas famílias, a diretora Dee Rees acerta em cheio ao criar o clima certo, misturando tensão e beleza com forte tom de crítica social.

Os McAllan enterram seu patriarca: as decisões de Henry (Clarke) mudam a vida de todos
O filme começa com os irmãos Jamie (Garret Hedlund - Tróia, Tron: O Legado) e Henry McAllan (Jason Clarke - A Hora Mais Escura, Planeta dos Macacos: O Confronto) cavando uma cova para enterrar seu pai, Pappy (Johnathan Banks - Breaking Bad, Better Call Saul). O trabalho é duro, pois a pesada chuva transforma a terra em lama compacta, e logo percebemos que há ressentimentos escondidos naquele esforço inútil em dar um final digno para o patriarca. Quando fica claro que somente os dois não darão conta do trabalho sozinhos, Henry pede ajuda a seu vizinho Hap Jackson (Rob Morgan, em atuação espetacular). E o que era para aliviar um sofrimento, só aumenta a tensão. É preciso, então, voltar para o começo de onde as vidas dessas famílias viriam a se cruzar.

Hap (Morgan) e o filho Ronsel (Mitchell): duas gerações com formas distintas de lidar com o preconceito racial
Hap é também empregado antigo da fazenda e tinha uma relação minimamente amistosa com Henry e sua família desde que estes a compraram e se mudaram para lá. Henry pouco sabia sobre cultivar a terra, mas sempre teve o sonho de ser um grande fazendeiro como era seu avô - e por mais que ele não quisesse admitir, ele precisava da ajuda de seus vizinhos. Acontece que os Jackson eram negros e os McAllan, brancos - e no Mississipi, todos sabiam o seu lugar. Assim, era com bastante reserva que Henry tratava Hap, e apenas porque ele era a sua fonte de trabalho braçal. Homens de trajetórias distintas, porém com o mesmo sonho de ter uma terra para cultivar. Esse elo invisível se repete em suas mulheres: tanto Florence Jackson (Mary J. Blide, irreconhecível e em belíssima atuação) quanto Laura McAllan (Carey Mullingan) são esposas dedicadas a seus maridos e família, e seriam capazes dos maiores sacrifícios por seus filhos - e nem por isso seu valor era devidamente reconhecido por eles.

Florence (Blidge) e Laura (Mulligan): o sexismo é mais uma das características que unem e, ao mesmo tempo, separam as duas personagens
O mesmo paralelo surge com Jamie e Ronsel (Jason Mitchell - Straitgh Outta Compton, Kong: A Ilha da Caveira), os orgulhos das famílias. Ambos foram recrutados pelo exército americano para combater na Europa durante a Segunda Guerra e conseguiram sobreviver para voltar para casa como heróis, veteranos de guerra - mas se o mundo mudou após os acontecimentos, eles vão descobrir que no interior do Mississipi as coisas continuam exatamente como eram. Pappy McAllan faz questão de nos lembrar o tempo inteiro disso.

Pappy McAllan (Banks): o pior é saber que, ainda hoje, existem pessoas que pensam - e agem - como ele
O resultado é arrasador: foram apenas quatro indicações ao Oscar 2018, mas são todas históricas. Mary J. Blide merecidamente concorre em duas categorias: Melhor Canção por "Mighty River", composta e performada por ela, e como Melhor Atriz Coadjuvante - e tornou-se a primeira atriz a ser indicada em duas categorias em duas categorias e por ser a primeira indicada por atuar em um filme dirigido por uma mulher negra. Outro momento histórico é a indicação de Rachel Morrison, primeira mulher a ser indicada por Direção de Fotografia nos 90 anos em que existe a premiação. A quarta indicação vai para o Roteiro Adaptado de Virgil Williams e Dee Rees. Seria difícil digerir a brutalidade do que se passa na tela sem que houvesse a poesia do roteiro, que transforma as palavras fortes em falas memoráveis, que levam à reflexão profunda conforme te impactam. São diálogos e narrações poderosos enfatizados por uma atuação primorosa de todo o elenco. 

Ronzel e Jamie (Hedlund): veteranos que buscam nas tardes de conversas sobre a guerra algum sentido para a vida
O investimento da Netflix, produtora do filme, em longas de ficção mostra-se louvável. Já há alguns anos competindo em premiações com seus documentários e séries, o canal mostra que tem força para investir em projetos desse porte. Pessoalmente, torço para que o filme tenha tanta repercussão no cinema como a maioria das séries do canal de streaming tem para que haja espaço para a diversidade nas grandes premiações. O cinema e o público só tem a ganhar, e a agradecer.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Lady Bird: É Hora de Voar


Lady Bird (Lady Bird, 2018) é um filme regular, e seu destaque é somente o ótimo desempenho de atuação da dupla principal. Apesar disso, está indicado a 5 prêmios Oscar desse ano - incluindo as duas atrizes nos prêmios de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante. A trama gira em torno do amadurecimento de Christine "Lady Bird" McPherson (Saoirse Ronan), uma adolescente que está buscando pela própria identidade enquanto precisa lidar com o conservadorismo da cidade onde mora (Sacramento, Califórnia), a severa educação da mãe, Marion (Laurie Metcalf), as expectativas - ou falta delas - em relação ao seu futuro e as primeiras desilusões amorosas.

Lady Bird (Ronan) e Jules (Beanie Eldenstein): duas vertentes da adolescência de Sacramento

Christine é uma jovem de aspirações artísticas que mora no interior da Califórnia e sonha em atravessar o país para viver em Nova Iorque - ou pelo menos em qualquer outra cidade onde vários outros artistas famosos viveram. É mais ou menos assim que a personagem se apresenta para o público, demonstrando sua visão romântica e quase infantil de liberdade. Ela, na verdade, é mais uma adolescente comum querendo se destacar da multidão, mas, diferente das outras meninas, ela quer uma liberdade diferente: ela quer ser ela, independente do que isso realmente signifique. Então ela decide que criara seu próprio caminho a começar pela escolha do próprio nome. Se autobatiza "Lady Bird" e espera que os outros aceitem e respeitem sua decisão (embora não seja tão fácil assim). 

Lady Bird e a mãe, Marion (Metcalf): tão diferentes, tão iguais

Sua relação com a mãe é tensa, pois as duas tem gênio forte porém enxergam a vida de forma diferente. Enquanto Lady Bird se esforça para quebrar algumas regras (mas sem tanto esforço, ou dano às regras), Marion se desdobra no trabalho como enfermeira em clínica psiquiátrica para sustentar a família. Com visões tão diferentes de mundo - uma tentando manter o controle e sobrecarregada com responsabilidades, a outra querendo se permitir viver intensamente - e sem conseguirem chegar a um senso comum, as duas vivem às turras. Quando Larry (Tracy Letts, em belo trabalho), pai da jovem, perde o emprego e Lady Bird está prestes a tentar uma vaga na universidade, o frágil equilíbrio nessa balança sofre seu abalo mais forte.

Danny (Lucas Hedges) e a grande casa azul: o sonho de perfeição de qualquer jovem
Lady Bird retrata bem uma fase importante da vida, e que muitas vezes é neglicenciada. A adolescência é uma fase de descobertas e molde de caráter, e é a duras penas que Lady Bird vai aprender que a próxima fase é ainda pior. A diretora e roteirista Gerta Gerwig acerta ao tratar de forma tão natural, sem estereótipos forçados, a realidade agridoce da juventude: eles querem mais responsabilidades, mais aventura, parecer mais maduros do que realmente são - porém receber todas essa carga pode ser tremendamente assustador. Provavelmente foi esse o motivo da indicação desse longa nas outras 3 categorias em que concorre ao Oscar, Melhor Roteiro e Direção (Gerta Gerwig) e Melhor Filme; porém, se comparado a outros filmes que poderiam ter entrado na disputa, o longa perde força. Ainda assim, é bastante emocionante, divertido e gostoso de assistir. 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Três Anúncios Para Um Crime


Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbings, Missouri, 2017) é aquela deliciosa surpresa que o cinema, de vez em quando, nos oferece. A trama gira em torno de um tema pesado: uma mãe lutando para que se faça justiça ao assassino de sua filha em uma cidadezinha do interior dos EUA, onde os policiais parecem não querer se esforçar mais para solucionar o caso. O ótimo roteiro, porém, não nos afunda no drama da perda ou na busca implacável por um culpado. O que se vê na tela são os humanos envolvidos no caso, e tudo o que isso implica.

Mildred: ótima interpretação de McDormand, que lhe rendeu várias indicações e prêmios
Mildred Hayes (Frances McDormand, espetacular) volta para casa por uma estradinha quase abandonada e se depara todos os dias com três outdoors esquecidos, bem onde o hediondo crime aconteceu. Até que uma ideia surge: uma frase espalhadas por eles, uma pequena provocação. Nada imoral, nada ilegal, nada ofensivo. Apenas uma alfinetada no chefe de polícia, Willoughby (Woody Harrelson) e em todo o departamento de polícia local. Sua intenção era chamar a atenção para o caso não-resolvido, mas se tornou algo muito maior: quando o policial Dixon (Sam Rockwell, excelente) descobre os anúncios, uma pequena guerra tem início na cidadezinha.

Mildred e Willoughby (Harrelson): dois lados de um caso terrível não significa inimizade
Acontece que o delegado Willoughby está em fase terminal de câncer, e os cartazes de Mildred praticamente o culpam por não fazer nada a respeito do caso de sua filha - o que enfurece os policiais e acaba colocando parte da cidade contra ela e seus anúncios, culpando um homem à beira da morte de não cumprir seu trabalho. O caso chamou a atenção da imprensa, e quanto mais alarde fazia, mais a animosidade crescia entre Mildred e a polícia. Mas, incrivelmente, o clima não é tenso.

Os personagens secundários também tem sua importância, trazendo humor e humanidade à Mildred

Há muito espaço para um humor ácido, que expõe todas imperfeições dos personagens e os coloca em um mesmo plano terreno - ninguém ali é dono da verdade. Há apenas um único vilão nessa estória, o assassino de Angela Hayes (Kathryn Newton) - todos os outros são apenas humanos lidando com a pressão, com o medo da morte, as fofocas da comunidade, a culpa, o sentimento de fracasso. Há também um olhar terno, compreensivo com a motivação e os erros de cada um deles (quase como um olhar de mãe). Há uma forte crítica ao americano típico, suas crenças e seu modo de ver a vida - especialmente os que vivem em pequenas cidades do interior. 

Dixon (Rockwell) é o personagem mais controverso do longa - e o ator está ótimo em cena
No fim, Três Anúncios é um agridoce enredo sobre esperança. As interpretações do elenco são memoráveis, com destaque para McDormand e Rockwell, que mereceram todas as indicações e prêmios que receberam. Ela, por fazer a deliciosamente esquentada Mildred; ele, por adicionar camadas ao idiota, preconceituoso e quase infantil Dixon. Vale todas as indicações e prêmios recebidos este ano, inclusive o Golden Globe de melhor atriz e ator coadjuvante para McDormand e Rockwell, Critic's Choice e SAG Award's de Melhor Elenco. Que venha o Oscar 2018!

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Maze Runner - A Cura Mortal


Terceiro e último capítulo da trilogia baseada nos livros de James Dashner, Maze Runner - A Cura Mortal (Maze Runner: Death Cure, 2018) encerra a saga de Thomas e seus amigos sobreviventes do labirinto na luta contra o controle da CRUEL, uma mega corporação científica, sobre suas vidas. Independente de ser uma parte de um todo (recomendo assistir aos outros filmes antes de ir ao cinema), o longa de Wes Ball (que cuidou de toda a trilogia no cinema) é um típico filme de ação - com os mesmos defeitos e qualidades.

*Atenção: se você não viu nenhum filme, esse texto vai ter spoilers*

A primeira sequência de ação é um resgate audacioso: Thomas (Dilan O'Brien) planejou e executou uma ousada emboscada a um trem com carregamento para a CRUEL. Seu objetivo era resgatar Minho (Ki Hong Lee), que fora levado por Janson (Aidan Gillen, o eterno Mindinho de Game of Thrones) quando ele invadiu o refúgio comandado por Vince (Barry Pepper) e quase dizimou o grupo da resistência; porém o resultado não é o esperado: apesar de ter resgatado vários imunes - inclusive o amigo Aris (Jacob Lofland) - Minho não estava no lote. Thomas precisa, então, decidir se vai fugir para um novo Lugar Seguro com Vince ou se vai arriscar tudo para salvar o amigo.

Thomas (O'Brien) e Newt (Brodie-Sangster) em ação para resgatar o amigo sequestrado pela CRUEL
Enquanto isso, Teresa (Kaya Scodelario) continua firme em seu propósito de tentar achar a cura para o vírus, mesmo tendo que assistir a toda tortura a qual os imunes são impostos. Apesar de ela ter consciência do quanto desapontou seus amigos ao voltar a trabalhar para a CRUEL, ela acredita que todo o sofrimento será recompensado quando uma vacina eficiente for descoberta. Mas, apesar dos esforços, nada efetivo está surgindo - e os custos do projeto já começam a pesar quando os acionistas pressionam por resultados. Para que algum sucesso aconteça, os imunes restantes precisam receber a maior segurança possível - e é por isso que os planos de Thomas para resgatar seu amigo podem por tudo a perder. Janson está ciente de que ele não vai parar enquanto não salvar Minho e se prepara para um contra-ataque pesado (com um quê de vingança pessoal, diga-se).

Teresa (Scodelario) e Ava (Clarkson): corrida contra o tempo para achar a cura
A ação nesse filme é garantida, como era de se esperar. Numa desenfreada corrida contra o relógio, é óbvio que alguns pequenos furos e falhas na trama acabam passando. Mas o que incomodou de verdade foi a quantidade de clichês mal conduzidos e o texto, extremamente brega. Decisões burras, falas óbvias e/ou piegas e textões desnecessários (quando chegar o fim do filme vocês vão entender) acabam por tirar o foco das boas cenas de ação. O jovem elenco também dá conta do recado, principalmente quando as circunstâncias exigem mais emoção. 

Quem pode confiar em Teresa ou no Janson (Gillen)?
O que esperar, então, de Maze Runner - A Cura Mortal?  Um final apocalíptico para uma trama que explora a busca desenfreada da humanidade pela sobrevivência não podia deixar de ter suas baixas - algumas a gente sente, outras a gente até curte. Há surpresas pelo caminho, como um reencontro inesperado, e uma mudança de maré (até previsível para o espectador mais atento) conseguem amarrar as boas cenas de ação e perseguição. Há uma brecha para uma sequência ao final do longa, e creio que as circunstâncias que levaram até lá reforçam a oportunidade, mas talvez isso fique apenas na sugestão mesmo. Como um todo, o filme entretém e dá um desfecho razoável para toda a estória desenhada até aqui. Vale o ingresso e a pipoca, mas o 3D não é necessário.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Sem Fôlego


Baseado no livro homônimo de Brian Selznic, Sem Fôlego (Wonderstruck, 2018) é um filme lindo - como já era de se esperar ao conhecer a obra que o inspirou. Mantendo a estrutura de duas narrativas paralelas com duas linhas do tempo distintas (porém com similaridades impressionantes), o filme funciona como um bom passatempo apesar de seu ritmo lento. O elenco mirim do filme é o grande destaque, além de uma temática de inclusão social bastante emocionante. 

Roese (Simmonds): ela foge de casa para tentar encontrar sua atriz favorita
Anos 1920. Em preto e branco, acompanhamos a estória de Rose (Millicent Simmonds, uma pérola), uma menina com estranhos hábitos: adora criar miniaturas de prédios e outras construções feitas com papel, vive andando sozinha e recorta quase obsessivamente notícias sobre a grande estrela de cinema Lilian Mayhew (Julianne Moore). Logo a gente percebe que a casa dela não é o mais acolhedor dos lares, mesmo que ela seja rica. Descobrimos que ela é surda quando a vemos levar uma bronca de seu pai por escrito. Logo depois, ela foge de vez. Seu objetivo é encontrar Lilian no teatro onde ela se apresentará, em Nova Iorque. Ela não mede esforços para tanto, mas o encontro não ocorre como o esperado. Ela acaba encontrando refúgio no Museu de História Natural de Nova Iorque, que vai se tornar uma peça-chave no elo entre as duas tramas.

Ben (Fegley): ele foge de casa para tentar encontrar alguma pista sobre seu pai
Anos 1970. Ben (Oakes Fegley, fofíssimo) acabou de ficar órfão. Ele nunca conhecera o pai, e sua mãe Elaine (Michelle Williams) viveu com ele a vida toda numa cabana perto da casa da irmã, à beira do Lago Gunflint - uma divisa entre os Estados Unidos e o Canadá. Após a morte da mãe, porém, o garoto se sentia completamente só. Da janela do quarto que dividia com o primo chato Robbie (Sawyer Nunes), ele via sua casa abandonada. Em uma noite de tempestade, e ele pensou ter alucinado sobre ver uma luz acesa no quarto da mãe e foi lá conferir - apenas apara se frustrar ao encontrar sua prima Janet (Morgan Turner, de Jumanji - Bem-vindo à Selva) lá. Aproveitando a ida à sua antiga casa, ele quer passar mais um tempo lá para matar as saudades. Mexendo nos objetos da mãe, encontra algumas economias, sua antiga coleção, e um livro sobre museus com o curioso nome de "Gabinete de Maravilhas". Dentro dele há um recado assinado por um misterioso Danny em um marcador - que pode ser uma pista sobre quem é o pai de Ben. 

Jamie (Michael): tagarela, vai descobrir um jeito de se comunicar com o novo amigo Ben e ajudá-lo em sua busca
Mesmo após um acidente - sua casa é atingida por um raio e Ben acaba recebendo uma parte da descarga elétrica, pois estava ao telefone no momento em que tudo aconteceu - ele não desiste da ideia de desvendar aquele mistério. Tendo que se adaptar a uma surdez (provavelmente temporária) e indo para uma cidade grande completamente sozinho, ele vai contar com a ajuda inesperada de Jamie (Jaden Michael), um menino tagarela e cheio de energia que vai levar Ben a descobrir, sem querer, coisas incríveis sobre como ele tem uma conexão especial com o Museu de História Natural.

Diferente de A Invenção de Hugo Cabret (outro longa baseado na obra de Selznic), eu não havia lido o livro antes da exibição do filme de Todd Haynes - ainda assim, as minhas expectativas estavam altas. Eu me apaixonei pelo estilo do autor, onde as belíssimas e emocionantes ilustrações dos livros não são somente uma representação da estória: elas são parte da narrativa. Haynes acerta em cheio nesse quesito: houve cenas que eu, de cara, identifiquei como reproduções fiéis do livro sem nem mesmo vê-las, de tão parecidas com o estilo de ilustração do autor. Isso foi um alívio. Talvez por isso eu tenha me encantado mais com a parte narrativa de Rose (que é a trama ilustrada no livro) do que a de Ben, que sofreu mais alterações na adaptação. Nada de grave, mas eu sempre acabei esperando ver mais de Rose que de Ben - e não é bem assim que acontece.

Julianne Moore vive uma atriz estrela do cinema mudo, ídola da jovem muda Rose
A bela e melancólica fotografia em preto e branco usada para retratar a estória de Rose contrastava com a vibrante e quente do verão dos anos 1970 onde acompanhamos a aventura de Ben. Ainda assim, ambas refletem bem o desconforto dos pequenos em relação ao mundo que os cerca: tudo lhes parece confuso, estranho, complicado, hostil - porém nada os faz desistir de buscar seus sonhos. O trabalho primoroso de produção de arte e figurino já nos fazem crer em indicações a prêmios para esse trabalho. Julianne Moore, destaque estelar do elenco, está discreta em sua pequena participação - e isso acaba sendo um enorme elogio, já que esse é um filme de sutilezas. A forma delicada como trata de uma deficiência até bastante comum - porém pouquíssimo retratada - é um incentivo para que a gente perceba o mundo com outros olhos. 

E se em Hugo Cabret a inspiração parece ser a paixão pelo cinema, nesta estória a musa principal deveria ser o fascínio que os museus exercem sobre os curiosos. Aqui, no entanto, o ritmo lento não traduz a sensação de "estar maravilhado" (uma tradução que, neste contexto, me soa mais acertada do que "sem fôlego" para o inglês "wonderstruck") como deveria ser e o lento desenrolar da trama torna-se um tanto cansativo. Ainda assim, recomendo esse filme por conta das atuações do trio infantil e de sua tocante mensagem: no fundo, todos nós nos sentimos um tanto deslocados do mundo - mas basta um amigo, alguém que o aceite como somos e que nos compreenda, que tudo ficará bem.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O Touro Ferdinando

A estória de O Touro Ferdinando (Ferdinand, 2018) é baseada no romance "Ferdinando, o Touro" ("The story of Ferdinand", no original inglês) do escritor americano Munro Leaf.  A clara mensagem pacifista do livro transformou-se numa divertidíssima adaptação para o cinema pelas mãos de Carlos Saldanha (diretor brasileiro de animações como Rio e A Era do Gelo 2). A animação de quase 2h não cansa ao expectador e ainda diverte e emociona a crianças e adultos. Atenção para a dublagem brasileira, que arrasou no tom para cada personagem (mesmo com a presença de não-dubladores, como a atriz mirim e ex-apresentadora Maísa Silva). 


Ferdinando (John Cena/Duda Ribeiro) nasceu em uma fazenda especializada em criar touros para touradas. Na Casa del Toro, a única chance de sair dali era ser o touro mais forte e destemido - assim ele teria uma chance de enfrentar o toureiro que o escolhesse e, se o vencesse na arena, seria livre. Então pais ensinavam a seus filhos a serem valentes, mas o pequeno Ferdinando não queria saber de brigar. Ele gostava mesmo de flores. Seus amiguinhos zombavam dele por isso, mas nem assim ele deixou de ser gentil: afinal, seu pai também era forte e destemido, e ainda era bondoso e gentil. Foi depois que seu pai fora escolhido para lutar contra um toureiro que Ferdinando decidiu que não queria mais aquela vida.

Nina (Maísa) adota Ferdinando ainda bezerrinho: ganhou um amigão de quase uma tonelada!
Ele consegue fugir da Casa del Toro e encontra abrigo na casa de Nina (Lily Day/Maísa). Lá ela o trata com carinho e gentileza, e Ferdinando cresce (e muito!) em um pequeno paraíso na companhia do cachorro Paco (Jerrod Charmichael) e do pai de Nina, Juan (o cantor colombiano Juanes). Sua paixão por flores o faz acompanhar a família no festival anual de flores da cidade vizinha, mas naquele ano ele não poderia ir: havia crescido demais para poder andar entre as ruas estreitas da cidade - ainda mais difícies de andar por conta dos enfeites e transeuntes. Mas Ferdinando não quis ficar para trás e acabou se metendo na maior confusão.
Paco (Charmichael) ficou um pouco irritado com o penteado "boi lambeu"
Sendo levado para longe de Nina e de volta para a Casa del Toro, ele reencontra seus amigos Valente (Bobby Cannavale/Leonardo Rabelo), Guapo (Peyton Manning) e Magrão (Anthony Anderson/Paulo Vignolo) ainda lá, esperando para serem escolhidos. Até parece que nada mudou, mas as coisas mudaram muito: o clima fica mais pesado, como se a competição estivesse mais acirrada - ressaltada pela presença dos esnobes cavalos Hans (Flula Borg/Otaviano Costa), Greta (Sally Phillips) e Klaus (Boris Kodjoe). Novos touros estão no páreo para serem escolhidos por El Primero (Miguel Ángel Silvestre, o Lito de Sense8), como o touro irlandês Angus (David Tennant/Mário Jorge) e o esquisito Máquina - e eles dispõem até de uma cabra treinadora, a tresloucada Lupe (Kate McKinnon/Thalita Carauta). 

Os cavalos comandados por Hans (Costa) enfrentam os touros em uma inusitada e divertida batalha de talentos
Mas Ferdinando continua sendo ele mesmo: o que ele quer é sair dali sem lutar, e o mais rápido possível voltar para sua amada fazenda de flores e sua família com Nina, Juan e Paco. Para montar um plano de fuga, ele vai contar com a ajuda inesperada de Una (Gina Rodrigues/Bruna Laynes), Dos (Daveed Diggs/Phillipe Maia) e Cuatro (Gabriel Iglesias/Wirley Contaifer), um trio de ouriços tão habilidosos quanto fofos - e doidinhos. Enquanto isso, seus amigos ainda lutam para serem escolhidos e o chamam de covarde por só pensar em fugir. O que Ferdinando fará? Será que ele finalmente vai ouvir seus amigos e começar a brigar por sua vida? Ou vai aceitar que é um "covarde" e fugir de qualquer jeito?

Lupe (Carauta) se esforça para fazer de Ferdinando um touro matador, mas olha ele enfrentando a ira desse coelhinho!
Envolvente desde os primeiros minutos, a sensível estória leva a gente a pensar sobre como encaramos nossa vida. É muito fácil se identificar com os personagens e seus dramas, e o mais surpreendente é que há tanto bom humor que o peso do contexto (um touro que tem como destino uma tourada não é nada mais do que uma alegoria da humanidade rumando para o final inevitável da morte) permanece como uma leve ameaça constante porém sem dominar os sentimentos do espectador. A gente se diverte com as trapalhadas de Ferdinando, ri com as piadas sutis, gargalha com as crises histéricas de Lupe e as artimanhas dos ouriços e nem se dá conta do tempo passando. 

O trio de ouriços é uma das coisas mais fofas do filme (que já é uma fofura só!)
Com uma mensagem importante de respeito a si próprio, de consciência de que existe um mundo muito maior do que aquela bolha onde a gente vive (e que as regras nem sempre são justas), de que um ato de bondade pode mudar a vida de outras pessoas, O Touro Ferdinando me surpreendeu. Eu esperava ver uma animação bem feita e uma estória até triste e melancólica, mas do início ao fim o tom é positivo. Pais e filhos vão adorar os personagens e aprender preciosas lições de otimismo consciente, de bondade e amizade, enquanto se divertem a valer. Uma ótima pedida para as férias, vale o ingresso e a pipoca da família inteira.